Gucci outono/inverno 2023 (Créditos: Getty Images)
Quem apareceu no número 77 da Via Mecenate, em Milão, (ou mesmo quem só acompanhou pela transmissão ao vivo), testemunhou o fim de um romance. No primeiro dia da semana de moda masculina italiana, a Gucci abriu a temporada com seu desfile de outono/inverno 2023: o primeiro da marca desde a saída do diretor-criativo Alessandro Michele, em novembro. Para a “Gucci Gang” (os fãs que acompanhavam o trabalho do estilista desde 2015), a impressão que ficou ao fim da apresentação é de uma – quase – total revolução.

Se o ex-designer da casa florentina colocou o mundo da moda aos seus pés com uma estética romântica, glamourosa e very 70s, dessa vez o espírito foi outro. Ao invés de uma jornada extravagante ao som disco de Bronski Beat (a trilha que marcou Exquisite Gucci, a apresentação da marca em fevereiro de 2022), o ritmo agora é puro rock & roll: Marc Ribot’s Ceramic Dog, ao vivo, no centro de uma arena circular onde 48 modelos desfilaram em ciranda. Cenário, vale resgatar na memória, semelhante ao da temporada feminina de outono 2020.

O clima de tensão e mistério acabou quando o primeiro look entrou na passarela: camiseta branca, calça de alfaiataria, gorro preto e bolsa de camurça. Minimalismo puro! De fato, essa estética “inédita” dominou durante o desfile e restaram poucos resquícios do legado excêntrico de Michele (como um par de calças metálicas combinadas com botas cor-de-rosa), ainda que o styling tenha trazido momentos lúdicos, incluindo um modelo de cabelo pink no mesmo tom da bolsa, uma calça vinil preta com uma bolsa felpuda em estampa de cheetah e até um top cintilante combinado com botas verdes.

Apesar do aparente exagero (polainas e modelagens oversized dominaram a cena), nada cruzou a linha de fantasia criada por Michele e tudo pareceu extremamente natural. Nem mesmo o icônico monograma GG foi protagonista, salvo raras exceções em acessórios e calçados. A nostalgia também não foi foco, ainda que alguns decotes V profundos tenham revivido a sensualidade dos anos Tom Ford da Gucci. E, embora a batida de Lies My Body Told Me estivesse no volume máximo, o clima e a paleta eram de leveza e possibilidade – muita, já que a marca ainda não anunciou um substituto para Michele.

Nesse início de uma nova era na casa, a intenção por trás do novo look pode ser uma resposta à atmosfera geracional. Em tempos de Tik Tok e consumo rápido de conteúdo, talvez não compense investir em uma teatralidade efêmera, apenas para ter que fazer tudo de novo na temporada seguinte. Houve quem estivesse lá para receber a mudança de braços abertos: além de celebridades como ator Idris Elba e o ídolo coreano Kai, um time de empresários marcou presença na ocasião, incluindo o CEO da Gucci, Marco Bizzarri, o CEO do Grupo Kering (o grupo de luxo dono da marca italiana), François-Henri Pinault, e o ex-presidente da própria Semana de Moda de Milão, Mario Boselli.

Se, para alguns, a novidade foi um sucesso e uma oportunidade para sonhar com uma nova fase na moda, para outros, foi um espetáculo digno de uma tragédia italiana shakespaeriana, ainda que ultra-fashionista. Nessa versão da história, porém, o término não é entre Romeu Montecchio e Julieta Capuleto, mas entre a casa Gucci e o príncipe renascentista Alessandro Michele.
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