Garoto yanomami – Foto: Rosa Gauditano
A terra-floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os espíritos xapiripë, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los para nos proteger. A terra-floresta se tornará seca e vazia. Os xamãs não poderão mais deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim, todos morrerão.”
– Trecho do livro “A Queda do Céu, de autoria de Davi Kopenawa, líder Yanomami e transcrito por Bruce Albert.
Por Day Molina
Segundo o xamã yanomami, “urihi”, a terra-floresta, não é um mero espaço de exploração econômica. A natureza trata-se de uma entidade viva, inserida na dinâmica cosmológica em conexão entre humanos e seres não humanos. Esse desequilíbrio desordenado, resulta exatamente na crise humanitária que presenciamos agora. A ganância pelo dinheiro, mata.
Começamos o primeiro mês do ano, com grande alarde sobre os yanomamis. Há 4 anos, ativistas indígenas vêm denunciando crimes que vêm acontecendo de forma recorrente no território. Em um dos desfiles da minha marca, fizemos um protesto em solidariedade a comunidade yanomami. No mesmo ano, houveram algumas mobilizações expressivas como no caso da tag #sosyanomami, que viralizou no Instagram e ficou no trends topic do twitter no início do ano passado. Mas isso não foi suficiente para que existisse uma atenção comprometida e intervenção mais severa contra o garimpo e suas atividades ilegais.
Vale ressaltar, que não houveram apenas negligência, mas também o apoio a exploração de minérios nesta região. Em maio de 2022, o G1 afirmava em sua reportagem investigativa, que havia cerca de 20 mil garimpeiros destruindo a terra, poluindo os rios, explorando sexualmente mulheres indígenas, persuadindo alguns homens indígenas com álcool e drogas.
A ministra dos povos indígenas, Sônia Guajajara, fez uma importante intervenção nesse sábado (21.01). Levando consigo, uma comitiva do governo atual; o presidente Lula e a ministra da saúde, Dra Nísia Trindade. Essa ação não é apenas emergente, como muda toda a situação que se encontrava esse território. Durante visita à Boa Vista, (RR), a ministra falou que a gestão anterior, é responsável pela crise humanitária do povo yanomami. Segundo Sônia Guajajara, ao chegar no território, encontram “adultos com peso de crianças e crianças em situação de pele e osso”.
O governo anterior, não foi apenas omisso ao povo yanomami, como incentivou o garimpo no território. Ao longo de 4 anos, a comunidade teve suas terras invadidas, suas mulheres violentadas, suas crianças desnutridas, mortes incontáveis e a ausência da Funai. Totalmente desassistidos e vulneráveis, os yanomamis viveram uma perseguição cruel e desumana. Ao ponto de fugirem do próprio território e serem quase extintos.
Penso que a falta de conscientização sobre os povos originários do Brasil, resulta em grande invisibilidade da existência de culturas, cosmovisões e situações reais sobre comunidades originárias nesta nação. Se a população brasileira se conscientizar, o estado também entende que é pressionado por mudanças sociais efetivas.
Política anti humana, destrói a terra, as pessoas e polui o planeta. Temos percebido, o quanto pensar e falar de política é essencial em nosso bem estar coletivo. Já havia escrito em outras colunas de opinião, que sonhava com o dia em que houvesse maior nível de respeito e preservação da cultura indígena em nossa nação. Esse tempo chegou. E hoje o que vemos é fruto de um novo tempo, onde podemos enxergar com esperança, o comprometimento e responsabilidade do estado. Possibilitando assim, maior nível de dignidade e atenção humanitária a TI (terra indígena) yanomami.
Sigamos com esperança de que merecemos um futuro melhor, onde as crianças yanomami não morram de fome, assassinadas ou violentadas, para que o povo yanomami viva a plenitude de seu propósito e existência, preservando sua cultura, seu território e não permitindo a queda do céu sobre a humanidade.
Torço para que o nosso nível de consciência coletiva, aumente ao ponto de nunca mais permitirmos esse tipo de crise humanitária, calados, desconhecidos de um assunto tão grave. Aproveito a oportunidade para sugerir uma leitura essencial nesse tempo: o livro de autoria do líder yanomami, Davi Kopenawa, transcrito por Bruce Albert, “A Queda do Céu”. Eu inicio esse artigo, referenciando o pensamento desse grande líder. Boa leitura!
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