Jackie Kennedy com look Oleg Cassini, fotografada por Richard Avedon na Flórida., para a edição de fevereiro de 1961 da Harper’s Bazaar (Créditos: ©THE RICHARD AVEDON FOUNDATION)
Com a posse presidencial brasileira em alta – e os looks da nova primeira-dama, Janja Lula, rendendo comentários nas redes sociais – o revival dos looks mais memoráveis entre as esposas de presidentes ao longo da história virou assunto. Jackie Kennedy, é claro, não fica de fora da conversa. Considerada um dos maiores ícones de estilo do século 20, foi primeira-dama dos Estados Unidos por um curto período (entre 1961 e 1963, quando seu marido foi assassinado antes de completar o mandato), mas deixou sua assinatura fashion como referência para milhões de mulheres. Tudo isso com ajuda da Harper’s Bazaar.
Grávida do seu filho mais novo, John Kennedy Jr., e ainda em campanha com o marido para assumir o posto na Casa Branca, Jackie enviou uma carta no verão de 1960 para Diana Vreeland, a lendária editora de moda da Bazaar americana, com um pedido urgente: “Escrevo a você com a esperança de que, em sua vida ocupada, você poderia encontrar alguns minutos para me ajudar a resolver um enorme problema: ROUPAS”.
A vontade desesperada por ajuda era justificada. Há meses, o diretor da União Internacional de Roupas Femininas, David Dubinsky, cobrava JFK, ainda candidato à presidência, para que sua esposa priorizasse designers americanos ao invés de seus costureiros franceses favoritos, como Cristóbal Balenciaga, Hubert de Givenchy, Pierre Cardin e Bob Bugnand. A ideia, segundo Dubisnky, era de que Jackie costurasse as próprias roupas, seguindo o exemplo de Pat Nixon, cujo marido também estava concorrendo ao cargo de presidente do país.
A editora de moda Diana Vreeland e Jackie Kennedy Onassis, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York (Créditos: Getty Images)
“Terrível. TERRÍVEL!”, foi a resposta de Vreeland, na Bazaar desde 1936, à ideia de Dubinsky. Para ajudar a situação, a editora de moda assumiu a responsabilidade de guiar a futura primeira-dama dentro do universo da moda americana. A relação não era recente: as duas se conheciam desde a década de 1940, quando Jackie debutou na sociedade de Nova York, e até mesmo Frecky e Betty, filho e nora da Diana, já eram amigos dos Kennedy há anos. A irmã de Jackie, a princesa Lee Radziwill, também já havia trabalhado como assistente para Vreeland na Bazaar, em 1952.
Jackie fazia parte do universo da política desde 1953, quando se casou com o então senador John F. Kennedy. Apesar do desinteresse pela política (preferia assuntos como arte, cultura e balé), ela entendia o poder da imagem em uma campanha. Sem querer renunciar ao amor por designs franceses no armário, encontrou em Diana Vreeland, igualmente francófila, uma cúmplice cheia de soluções: comprar roupas em ateliês e fabricantes americanos que faziam cópias exatas de modelos parisienses.
Jackie Kennedy indo para o Baile de Pré-Inauguração Presidencial, em 19 de janeiro de 1961 (Créditos: Getty Images)
A ideia foi genial e, durante seu período como primeira-dama, Jackie aproveitou a brecha para desenvolver seu estilo pessoal. O exemplo mais famoso, talvez, tenha sido o tailleur de lã rosa que ela usou na manhã do assassinato de JFK, em 22 de novembro de 1963. Apesar de ser um design original da Chanel, a roupa foi confeccionada nos Estados Unidos pelo ateliê Chez Ninon.
Outros nomes de etiquetas americanas com looks francesas inclusos na lista de Vreeland eram Ben Zuckerman, Jacques Tiffeau, Originala, Traina-Norell, Bergdorf Goodman e Oleg Cassini. Esse último, um figurinista de Hollywood e ex-namorado de Grace Kelly, acabou se tornando o costureiro oficial de Jackie na Casa Branca, mas nunca deixou de receber instruções da editora de moda da Harper’s Bazaar: “Diana Vreeland vai te ligar sobre um vestido que ela quer para a Bazaar”, explicou Jackie em uma de suas cartas para Cassini.
Mesmo antes da vitória de JFK, Jackie já pensava sobre o vestido que usaria no baile de inauguração (posse, no Brasil) do marido. Segundo ela, ainda que ele não ganhasse as eleições, “vou usar para sentar no sofá e assistir televisão”. Ao longo de meses, Jackie e Diana pensaram no design perfeito. “Precisa ser em um material fantástico”, escrevia para a editora de moda. “Prefiro branco, já que é a cor mais cerimonial. Mas estou aberta a considerar outras cores”.
Jackie e John F. Kennedy Jackie Kennedy fotografados por Richard Avedon na Flórida., para a edição de fevereiro de 1961 da Harper’s Bazaar (Créditos: ©THE RICHARD AVEDON FOUNDATION)
A única exigência, porém, era que o vestido fosse simples: “Deve ser perfeito e de bom gosto, sem muitos paetês como Nettie Rosenstein”, comentou à Diana em referência à designer que criou o vestido brilhante para a antiga primeira-dama Mamie Einsenhower.
As principais preocupações sobre o look que usaria na manhã da inauguração, em 20 de janeiro de 1961, eram: “Luvas? Chapéu? Bolsa?”. Ela acabou elegendo um casaco de lã azul, assinado por Cassini, e um chapéu pillbox criado pelo então quase-desconhecido Halston. Nas mãos, para fugir do frio de Washington, ela usou um regalo de pele, seguindo as sugestões de Vreeland.
A capa da edição de fevereiro de 1961 da Harper’s Bazaar, onde o casal presidencial John e Jackie Kennedy estrearam (Crédito: The Hearst Archives)
Algumas semanas antes da cerimônia, porém, foi a vez de um momento revolucionário. Diana confessou à Jackie que queria que gostaria que a Harper’s Bazaar fosse a primeira a ter fotos oficiais da nova família presidencial. O pedido foi aceito e, no dia 3 de janeiro daquele ano, o fotógrafo Richard Avedon e a editora de moda visitaram os Kennedy em Palm Beach, na Florida. As fotos foram publicadas na edição de fevereiro e entraram não apenas para a história da moda, mas para a da política internacional.
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