Coco Chanel no início dos anos 1950 (Créditos: Getty Images)
Coco Chanel é, provavelmente, a mulher mais famosa da moda. Ainda que cercada de mistérios (adorava inventar fatos sobre sua vida), criou, a partir de sua própria pessoa, uma marca reconhecida internacionalmente mesmo décadas depois de sua morte, em 10 de janeiro de 1971, no Ritz de Paris. E, apesar do gênio e personalidade fortes por trás de suas criações mais famosas, não criou seu império sozinha: desde o início, dedicou sua vida pessoal e profissional à beleza e ao glamour, dos quais a Harper’s Bazaar sempre foi sinônimo. A prova? Foi a primeira revista a publicar uma roupa Chanel, em 1916.
Na época, Coco (apelido que Gabrielle ganhou ainda antes de entrar para o mundo da moda) já tinha alcançado seus 32 anos e relativo sucesso na Europa. Com a ajuda do amante e empresário inglês Boy Capel, inaugurou no ano anterior uma boutique em Biarritz, na costa basca, amplamente frequentada pelas mulheres da alta-sociedade que procuraram refúgio no litoral durante a Primeira Guerra Mundial. O sucesso da empreitada garantiu para Chanel sua independência financeira e uma legião de quase 300 mulheres trabalhando em todos os seus ateliês. Entre elas, Antoinette, sua irmã, ficou no comando do estúdio em Biarritz, onde foi criado o robe chemise que, em março de 1916, entrou para as páginas da Harper’s Bazaar.
O primeira design Chanel publicado em uma revista, na edição de março de 1916 da Harper’s Bazaar (Créditos: The Hearst Archives)
Em anos anteriores, outros veículos de moda já haviam mencionado o nome da estilista e, desde 1910, quando ela ainda trabalhava como chapeleira, suas criações apareceram na imprensa. Foi Bazaar, porém, o primeiro nome a publicar uma ilustração de um design original da estilista, desde que começou a se aventurar no universo das roupas. De fato, a revista já publicava fotografias desde 1888 (quando uma modelo irlandesa estampou a capa de abril), mas as ilustrações de moda foram grande parte da personalidade do título até a metade da década de 1930.
Em 1918, quando Coco abriu sua icônica boutique na rue Cambon, em Paris, Bazaar comentou na edição de agosto, no artigo: “Chanel, em seus lindos novos salões na rue Cambon está criando modelos de tricô para Biarritz, onde seus designs estão ocupando, pelo menos, metade da praia. São roupas desejáveis para o litoral: frescas e quentes ao mesmo tempo.”
A boutique de Chanel em Biarritz, aberta em 1915 (Créditos: Divulgação / CHANEL)
A década seguinte foi transformadora para a estilista. Em 1921, ela e o perfumista Ernest Beaux lançaram o icônico perfume Chanel Nº5 e, em 1924, com o investimento dos irmãos Pierre e Paul Wertheimer, fundou a empresa Parfums Chanel, que deu origem a mais três outras fragrâncias: Gardénia (1925), Bois des Îles (1926) e Cuir de Russie (1927). Em agosto de 1922, a Harper’s Bazaar publicou uma ilustração do artista Drian, de um “vestidinho preto” Chanel precursor daquele que, em 1926, viria a ser batizado de “vestido Ford” e eternizado na moda como o “little black dress“. Outra revolução na década foi a descoberta do tweed, que Coco conheceu em suas viagens à Inglaterra com o Duque de Westminster, seu amante entre 1924 e 1930.
Um desenho do vestido preto de Chanel, feito pelo artista Drian e publicado na edição de agosto de 1922 da Harper’s Bazaar (Créditos: The Hearst Archives)
Todas essas mudanças foram acompanhadas de perto pela revista, que também vivia anos importantes. Em 1921, o Barão Adolph de Meyer entrou para o time da publicação como fotógrafo todo-poderoso. Apelidado de “o Debussy da fotografia” pelo lendário Cecil Beaton (em homenagem ao compositor francês Claude-Achille Debussy), de Meyer é considerado o pai da fotografia de moda e levou sua visão extravagante para dentro das páginas da Harper’s Bazaar, muitas estreladas por Chanel e suas criações.
Na edição de fevereiro de 1923, ele entrevistou a estilista sobre o bom-gosto e as cópias de seu trabalho – Chanel era a couturière mais copiada da época. Além de explicar que os plagiadores “jamais podem roubar minha autenticidade, espírito de descoberta e perfeição na produção”, ela também alfinetou que as cópias ajudavam “pobres costureiras sem imaginação a ganhar dinheiro”. No mesmo ano, Chanel voltou a ser assunto principal nas páginas da Bazaar de outubro, graças ao sucesso de seu ateliê. Na revista, a paixão dos clientes pelas criações de Coco foi descrita como resultado da “atmosfera de estabilidade” do ateliê, que não apostava em “mudanças radicais”, mas “sempre no mesmo, com novidade e diferença suficientes para fazer com que seja impossível negar uma roupa nova”.
Vestido Chanel na edição de abril de 1925, fotografado pelo Barão Adolphe de Meyer (Créditos: The Hearst Archives)
Na edição de abril de 1925, de Meyer fotografou um vestido de musselina branca, bordado com prata, cristais e pérolas. Dois anos depois, em outubro de 1927, ele comentou na publicação sobre a beleza das modelos que desfilavam as criações de Chanel: “Parecem mulheres da sociedade. Todas são elegantes, vestidas em um estilo jovial, e dão a impressão de terem sido bem educadas”. E tinha razão: na época, mais de um terço das garotas que trabalhavam como manequins eram de famílias aristocráticas que haviam fugido para a França durante a Revolução Russa. Chanel manteve a prática de contratar meninas de origem privilegiada durante toda a vida, incluindo a brasileira Mimi d’Arcangues, que entrou para o ateliê em 1958 e se tornou uma favorita.
Em novembro de 1928, outro look da estilista, dessa vez em organza bordada com pérolas e cristais, apareceu nas páginas da revista. Na legenda, o fotógrafo escreveu: “O esplendor é simplificado nesse vestido. Apenas Chanel poderia costurar joias como essa”. A criação icônica ficou tão querida entre o time Bazaar que, mesmo após a saída de de Meyer em 1934, ela foi fotografada outras vezes por seu sucessor, Man Ray.
Vestido Chanel na edição de novembro de 1928 da Harper’s Bazaar, fotografado pelo Barão Adolphe de Meyer (Créditos: The Hearst Archives)
Ao lado do diretor de arte da revista, Alexei Brodovitch, esse fotógrafo estadunidense ajudou a construir a identidade visual da publicação na década de 1930 – e Chanel teve posição de destaque nas páginas. Em 1935, por exemplo, Man Ray fotografou a estilista para a Harper’s Bazaar em uma das imagens mais icônicas de Coco Chanel: sentada de perfil, com um vestido preto, cigarro entre os lábios, seis colares de pérolas no pescoço e os pulsos cobertos por bijoux.
Coco Chanel fotografa para a Harper’s Bazaar por Man Ray, em 1935 (Créditos: The Hearst Archives)
Antes disso, a francesa já sido destaque na edição de junho de 1932, quando um de seus modelos (de renda e plumas de avestruz rosa) vestiu a socialite Lady Pamela Smith em uma fotografia ainda tirada por Adolph de Meyer. A imagem foi publicada um mês depois do desfile filantrópico que Chanel organizou em seu apartamento em Londres, em maio daquele ano, que reuniu mais de 130 designs – incluindo o eleito por Smith.
Lady Pamela Smith com um vestido Chanel de renda e plumas de avestruz rosa. Fotografada pelo Barão Adolphe de Meyer para a edição de junho de 1932 da Harper’s Bazaar (Créditos: The Hearst Archives)
Nesses anos 1930, assim como na década anterior, Coco se dedicou a apresentar trabalhos inovadores e desenvolveu ainda mais sua paixão por bijoux e acessórios. Em novembro de 1932, ela abriu as portas de sua casa para receber dezenas de convidados ilustres e revelar sua estreia no universo da alta-joalheria. A exposição ficou conhecida como “Bijoux de Diamants“, o lucro dos ingressos foi direcionado para instituições de caridade em Paris e a empreitada toda foi um sucesso. A imprensa ficou encantada e alguns dos broches viriam a tornar favoritos de Diana Vreeland, que se assumiu como editora de moda da Harper’s Bazaar em 1936.
A editora-chefe da Harper’s Bazaar, Carmel Snow, com Coco Chanel, nos anos 1950. (Créditos: Getty Images)
Também nessa década, Chanel experimentou com figurinos em Hollywood, vestindo atrizes como Gloria Swanson, Marlene Dietrich e Greta Garbo mas preferiu manter seu foco no universo da alta-costura. A decisão trouxe frutos já que, em 1935, ela já era a terceira maior marca francesa em termos de vendas para os Estados Unidos, atrás apenas de Molyneaux e Vionnet. Seu nome era um sucesso cultural e comercial e, no ano anterior – na edição de outubro de 1934 –, Bazaar a elegeu como um dos dez grandes nomes da moda, a descrevendo como “A Grande Mademoiselle da Moda Francesa” e uma mulher que “mudou a cara da indústria, desenhando roupas para a mulher moderna”.
Vestidos de tule Chanel fotografados por Man Ray para a edição de setembro de 1937 da Harper’s Bazaar (Créditos: The Hearst Archives)
Em 1937, o artista Jean Cocteau ilustrou Chanel para a edição de abril da Harper’s Bazaar, a chamando de “incomparável”. No mesmo ano, outro pioneirismo entrou para a história da revista: para a edição de setembro, o fotógrafo François Kollar fotografou Coco no Ritz, apoiada em uma lareira. A imagem, agradou tanto a estilista que, em novembro, ela transformou a foto em um anúncio para seu perfume, o Chanel Nº5.
Coco Chanel no Ritz, em Paris, fotografa por François Kollar. Essa imagem foi publicada pela primeira vez na Harper’s Bazaar, em setembro de 1937, antes de se tornar o anúncio oficial do perfume Chanel Nº5 em novembro (Créditos: Divulgação / CHANEL)
Ilustração de Coco Chanel feita por Jean Cocteau para a edição de abril de 1937 da Harper’s Bazaar (Créditos: The Hearst Archives)
O fim da década trouxe mudanças drásticas para a revista e o ateliê Chanel. Desde 1932, a editora-chefe da Bazaar, Carmel Snow, publicava sua “Carta de Paris” duas vezes por ano. Em 28 agosto de 1939, ela escreveu sua última antes da invasão nazista na capital francesa. Publicada na edição de outubro de 1939, ela descreveu o clima dentro das casas de moda parisienses e falou sobre Coco: “Os grandes espelhos na escada de Chanel [fotografados na revista por Adolph de Meyer em 1927 e François Kollar em 1937] não refletem nada, mas mademoiselle estava lá em seu pequeno escritório, cercada de fantasias fantásticas que ela estava criando para o novo balé de Salvador Dalí. Mas ela parou todos os trabalhos”. Dias depois de escrever a carta, Chanel fechou as portas de seu ateliê, em 3 de setembro de 1939.
Modelo na escada da boutique Chanel, na rue Cambon, em Paris. Fotografa para a edição de abril de 1927 da Harper’s Bazaar, pelo Barão Adolphe de Meyer (Créditos: The Hearst Archives)
Modelo na escada da boutique Chanel, na rue Cambon, em Paris. Fotografa para a Harper’s Bazaar em 1937, por François Kollar (Créditos: The Hearst Archives)
A estilista ficou na França durante quase toda a Segunda Guerra Mundial, ficando na suíte do Hôtel Ritz em que morava desde julho de 1935. Quando os alemães ameaçaram fazer a primeira invasão, ela fugiu para seu castelo em Corbère, o Château de Corbère-Abères, ao lado da amiga Marie-Louise Bousquet, a editora correspondente em Paris da Harper’s Bazaar. Apesar do conforto, as duas retornaram para a capital e Chanel saiu da França apenas em 1944, para se exilar em Lausanne, na Suíça.
Vestido Chanel em tule rosa com lamé preto e dourado, fotografado por Hoyningen-Huene para a edição de novembro de 1937 da Harper’s Bazaar (Créditos: The Hearst Archives)
Lá, ela se hospedou no Hôtel do Beau Rivage entre 1945 e 1954, recebendo visitas constantes de amigos. Entre eles, Carmel Snow, já em seus últimos anos como editora-chefe da Bazaar, que encorajou Chanel a reabrir seus ateliês em Paris. O retorno da estilista foi um sucesso e trouxe algumas das criações mais famosas da estilista, incluindo o tailleur e a bolsa 2.55. Junto com eles, outra novidade para a moda chegou na forma da modelo Suzy Parker, uma favorita não apenas de Coco, mas de Richard Avedon, fotógrafo na Harper’s Bazaar desde 1944.
Coco Chanel e a modelo Suzy Parker, fotografadas por Richard Avedon em 1959 (Créditos: The Hearst Archives)
Em 1959, ‘Dick’ (como era apelidado) clicou uma das fotografias mais icônicas da estilista com a modelo, publicada na edição de março da revista. Meses mais tarde, ele enviou flores para Coco, que recusou o buquê. O motivo? Pouco antes, Avedon havia fotografado a atriz Audrey Hepburn vestindo Givenchy, um dos rivais de mademoiselle. Chanel faleceu 12 anos mais tarde, aos 87.
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