Alexandre Allard – Foto: Christian Maldonado
Era uma manhã ensolarada de novembro, a poucas horas da estreia do Brasil na Copa do Mundo, quando Alexandre Allard, 53 anos, nos recebeu no “quintal” de seu apartamento em reforma – o restaurante Le Jardin, no hotel Rosewood, em São Paulo. Na pauta, sua paixão pelo Brasil, as próximas etapas da revitalização do complexo Cidade Matarazzo e a ligação com a natureza proposta pelo espaço verde que vem construindo em meio à selva de pedra. “No renascimento, nada se perde, tudo se transforma. Não é só uma frase de efeito, é a realidade. Esse ciclo tem uma poesia enorme e nós (humanos) paramos com isso. Hoje, tudo se perde”, resume à Bazaar o empresário americano de alma francesa.
Apaixonado pelo País, ele recorda a sensação de entrar pela primeira vez no terreno, há cerca de uma década, e que até pouco tempo era um elefante branco em uma das áreas mais nobres da pauliceia: “minha casa”.
Cidadão do mundo, pretende levar à Bahia (Salvador é um dos seus refúgios) o conceito de vida e residência experimentados na capital paulista. Allard não é ansioso. Seus projetos têm alma e demoram anos para se concretizarem. Busca entender o savoir-faire quando assume um desafio. Orgulha-se da Demolition Party que antecedeu a construção do complexo paulista e foi eternizada em um livro. “O que está acontecendo hoje, essa mistura, é realmente a invasão criativa”, define. “Criamos aqui a visão de uma cidade ideal. Minha ambição é reproduzir esse modelo. Um processo complicado, de anos e de agregação. Ninguém pensa assim”.
Mas é isso o que define a sua personalidade e a sua vida. Esse tipo de projeto vislumbra uma ideia que vai se ajustando ao longo do caminho. Ele sabe o poder de transformar um espaço inóspito em um lugar aconchegante com gostinho de pertencimento. Ou recuperar uma marca, como foi com a Balmain – ele ajudou a grife francesa a se reerguer no fim dos anos 2000 – e, também, quando repaginou o icônico hotel Royal Monceau, em Paris.
No universo fashion, aprendeu a ser um melhor empresário porque entendeu o que é a escola do perfeccionismo, com pesquisa permanente. Assim como na música – com nível de exigência sem limites. “O trabalho que faço na vida real, quando transponho é muito difícil”, lamenta. Mas segue tentando.
Do poço visionário que é sua mente, sairão dois novos projetos para São Paulo, extensão da primeira etapa do Matarazzo, onde já funciona o luxuoso hotel com diferentes restaurantes e torre residencial, espaço para eventos, capela e um hub para empresas verdadeiramente sustentáveis.
Ainda estão previstos o SoHo House, um shopping de portas abertas para a cidade e a clínica de beleza “mais importante do planeta”, com foco em longevidade. Allard se contém e diz que é o máximo que pode falar por ora – arrancando gargalhadas nossas e de sua equipe. “Tem dois lados: um focado em beleza e corpo, o outro, em beleza interior”, instiga. “É a medicina do futuro”. Sua parte preferida em wellness é a que comanda a mente, como ioga e meditação.
Corta a cena. Agora estamos com São Paulo aos nossos pés, com vista 360º – no horizonte tem desde o pico do Jaraguá até a torre do edifício Altino Arantes (antigo Banespa). A conversa continua no 25º andar da torre, onde Allard terá residência com uma grande piscina e um jardim que pode chamar de mata atlântica particular. O apartamento deve ficar pronto no primeiro trimestre de 2023. Ele escolheu das cadeiras às obras de arte. É sua obsessão no momento. “Sou um chefe de orquestra. Pego o violinista, o pianista e isso dá uma melodia. Quando você entra nesse hotel, o importante é a harmonia”, resume.
Por falar em música, se pudesse escolher um artista para o open house, responde sem titubear: Martinho da Vila cantando “Mulheres”. A penthouse foi projetada para receber os nomes mais poderosos do planeta, e ele vai morar, de fato, no andar de baixo. Ali, vai provar que o Brasil tem de voltar a ser um facho de luz. “Reconectar esse País com sua ancestralidade”, define. “Quais são as coisas essenciais?”, indaga com a resposta em riste: “Que o homem pretende à natureza”.
Em respeito aos antepassados, saúda os povos originários (indígenas e negros) com o maior sinal de respeito. Carrega consigo um bracelete no pulso direito nas cores preto e vermelho, que remetem à jiboia. Presente de um pajé da tribo Pataxó. “Para lembrar que pertencemos à natureza. E eles são os guardiões”. Allard, por sua vez, é um autêntico guardião urbano, ao promover o resgate da cidade com amor e criatividade que, segundo ele, é “o luxo do futuro”.
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